Micro hábitos

Como a pandemia vem impactando no nosso consumo? Uma reflexão sobre a consciência coletiva

publicado em
8.4.2021

Logo no início da pandemia muitas pessoas criaram uma visão romantizada de que após tudo isso, viveríamos um “novo normal”, que tornaria a sociedade mais consciente em relação ao planeta, modo de vida e impactos de consumo. Mais de um ano se passou. É verdade que a pandemia acelerou mudanças que demorariam muito tempo para serem implementadas no nosso modo de vida, mas os últimos tempos pouco se assemelham ao futuro que muitos esperavam viver há um ano atrás. A pandemia não acabou e estamos vivendo dias muito difíceis. 

O caminho para o consumo consciente é uma jornada de pequenos passos. O “despertar coletivo” que muitos previam no começo do isolamento social, infelizmente não acontece de uma hora para outra. É uma jornada feita de escolhas diárias, acertos e erros. Quando pensamos em uma nova era, precisamos levar em consideração que o mundo é extremamente plural, feito por pessoas diversas, que se comportam e consomem de diferentes formas. 

Sabemos que a consciência começa por um caminho interno de autoconhecimento, mas ela se desdobra em algo muito maior, que é pensar no sentido da humanidade e o que estamos deixando como legado. Por isso, ser consciente é agir, praticar, exercitar atos diários que vão reverberar no coletivo, impactando em políticas públicas, alimentação e consumo como um todo. 

“Pense local, aja global.”
Fonte: designweek.co.uk

Em Maio de 2020, muitas das pessoas que acreditavam nesse “novo normal” se assustaram ao ver notícias que mostravam filas de pessoas aguardando a reabertura de lojas de luxo e fast fashion em países como França, Holanda e China. No Brasil, a reabertura de shoppings centers foi celebrada com direito a tapete vermelho em Blumenau. Esse retorno do varejo físico trouxe novamente um conceito chamado demanda reprimida, ou em inglês, revenge buying. A demanda reprimida ocorre após um momento de privação na experiência de compra, gerando uma onda de consumo massivo para compensar aquele momento em que as pessoas ficaram sem consumir.

Porém, isso não significa que as pesquisas que apontam tendências de um despertar coletivo para um consumo consciente estejam equivocadas. E sim, que essas mudanças não acontecem da noite para o dia. Não é possível mudarmos repentinamente de um modo tão acelerado de consumo para algo 100% consciente eco friendly e perfeito. Mesmo assim, o modo de vida consciente vem ganhando cada vez mais força. Se antes da pandemia, ele vinha caminhando em passos largos, hoje ele chega correndo. Afinal de contas, precisamos ter calma, mas também temos urgência.


NOVOS HÁBITOS


Entre as diversas mudanças trazidas pela pandemia, pessoas mais privilegiadas estão conseguindo atravessar esse momento trabalhando em casa, com mais tempo para ler, se dedicar a tarefas domésticas, refletir, estudar e cozinhar.

A busca por receitas na internet aumentou como nunca antes visto. Muitas pessoas passaram a se arriscar na cozinha, colocando a mão na massa em novas receitas. Esse movimento acaba criando uma ligação mais afetiva com a comida e alimentos, trazendo mais consciência e compreensão sobre os ingredientes que estão sendo colocados no seu prato.

Fonte: Bon Appetit Magazine


De acordo com dados levantados pela Organis, o setor de alimentos orgânicos cresceu 10% desde o começo da pandemia. Uma pesquisa realizada pelo Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde na Universidade de São Paulo (Nupens/USP) identificou um aumento de frutas, verduras e hortaliças na população como um todo. A pesquisa indica que a frequência no consumo de alimentos saudáveis aumentou de 40,2% para 44,6% durante a pandemia. Porém, ao mesmo tempo, a pesquisa também apontou um aumento no consumo de alimentos processados durante a pandemia, principalmente na população das regiões Norte e Nordeste. De acordo com esse estudo, as pessoas com menores faixas de renda ou de escolaridade têm mais risco de consumir alimentos que fazem mal para a saúde.

Quando o assunto é a indústria da moda, houve uma queda de 78% das vendas do mercado. Durante esse último ano, muitas pessoas provavelmente se viram questionando a quantidade de roupas no guarda-roupa e o que realmente é essencial nesse novo momento. De acordo com uma pesquisa realizada pela Consumoteca, 45% dos participantes afirmaram que passaram a usar roupas mais básicas no dia a dia depois da pandemia. Esse movimento já vinha crescendo nos últimos anos, mas vem sendo intensificado pela pandemia e isolamento social.

Fonte: istockphoto.com

SAÚDE MENTAL E CONSUMO

 

Em meio a um ano cheio de mudanças no modo de vida, isolamento social, crise econômica, sanitária e política, o número de pessoas com ansiedade e depressão vem crescendo rapidamente. Quando falamos sobre saúde mental na pandemia, não podemos deixar de levar em consideração tantas pessoas que estão enfrentando o luto após perder familiares, amigos e companheiros.

De acordo com uma pesquisa realizada pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), os casos de depressão aumentaram 90% e o número de pessoas que relataram crise de ansiedade e estresse tiveram um aumento de 80%. Além disso, os resultados apontaram que as mulheres estão mais propensas a sofrer com ansiedade e estresse do que os homens. De acordo com a OMS, o Brasil é o país com maior número de pessoas ansiosas do mundo. 

Fonte: @museudoisolamento / Artista: Eduardo Argold (@_argould)

Após um ano de pandemia e grande piora da saúde mental, as vendas online seguem crescendo mesmo com a crise econômica e altos índices de desemprego. Muitas vezes, o consumo por impulso acaba funcionando como uma válvula de escape para a ansiedade, levando a uma busca para suprir uma necessidade incompreendida. O ambiente das redes sociais acaba facilitando esse acesso ao consumo, repleto de anúncios, propagandas, lojas e divulgações. Ao consumir, uma pessoa ansiosa libera dopamina, mas não encontra uma  solução definitiva e deseja comprar mais. Se você estiver sentindo ansiedade ou percebendo um comportamento consumista, é importante buscar ajuda de profissionais da psicologia.


Sabemos o quanto esse tema é sério e complexo, repleto de nuances e particularidades. Mas a partir dessas reflexões, podemos perceber o quanto o caminho para um consumo mais consciente, responsável é feito de diversos fatores, internos e externos. Por isso, precisamos gerar cada vez mais espaços de diálogo e debates, que envolvam a sociedade e especialistas das mais diversas áreas. 

Antes de comprar algo, tente avaliar a verdadeira necessidade da compra. “Eu realmente preciso desse produto?” “Posso gastar esse dinheiro?” “Estou tentando atender ou suprir alguma tristeza ou frustração interna com essa compra?” “Quais são as minhas motivações?” “Como esse produto é feito? Como será reciclado?” 


Aproveitamos para citar uma fala da Larissa Kuroki, engenheira ambiental e coordenadora de conteúdos e metodologias do Instituto Akatu, em uma entrevista para a Revista Gama. “Consumo consciente não significa deixar de consumir, mas consumir melhor e diferente, sem excessos, para que todos vivam com mais bem-estar hoje e no futuro. Significa ter a visão de que o ato de consumir um produto ou serviço está num contexto maior de ciclo de produção, trazendo consequências positivas e negativas não apenas ao consumidor, mas também ao meio ambiente, à economia e à sociedade, que vão além dos impactos imediatos.”

Para reforçar a importância dessa forma de encarar não apenas o consumo, mas a vida, separamos o curta-metragem “Mother Earth” com as palavras de Jane Goodall, uma das cientistas mais importantes da história. O filme está em inglês, mas é possível ativar as legendas e visualizar a transcrição em português através do Youtube. Além de lindas imagens, a narrativa é sensibilizante. Assista aqui no youtube.






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